Tempo em Guararema
22°
11°
tiempo.com  +info
GUIA

Aparecida do Norte

Crônicas do Itapema, por Jorge Souza.

Do quarto era possível ver o sol nascer pela fresta da janela ou por vãos na parede, pois, quase sempre um torrão do barro batido se desprendia da parede da casinha de pau-a-pique. Bonito era ver o raio da Lua entrando por estes buracos.

Ainda era madrugada, à luz da lamparina movimentava-se a casa. Na cozinha, a mulher, colocava as brasas no ferro de passar roupa. Na mesinha, estendido, o vestido florido, o único, só utilizado em ocasião especial. Como ocasião especial se podia contar nos dedos, o vestido estava novinho, porém, com certo cheiro de mofo.

No quintal, o marido a dar comida aos porcos e às galinhas. No pasto, o curiango soltava os seus últimos acordes e o cavalo Tinhoso, embaixo de uma Figueira, ruminava.

O casal, no interior da casa, era só felicidade. Na parede do quarto, um quadro oval em moldura marrom e fundo azul claro com a foto do casal tirada no dia do casamento. Ela, cabelo longo, olhos arregalados, o véu de noiva a cair pela enorme cabeleira e ele, cabelo penteado de lado (muito bem cortado pelo Veriato). Era a primeira fotografia e única fotografia até então.

O casamento fora simples – o marido lembra – no dia caiu uma tempestade enorme, o Rio Paraíba encheu. Naquela época, as enchentes eram comuns, não tinha a Barragem de Santa Branca, não tinha a ponte ligando a Guararema ao Itapema. A travessia era feita de balsa. Na volta para casa, durante a travessia, quase aconteceu um desastre! Um dos cabos que prendiam a balsa rompeu-se e a balsa rodou. Tava cheia de gente. Naquele instante, os dois agarradinhos, ele de terno e ela vestida de noiva, fizeram uma promessa a Nossa Senhora Aparecida:

– Se não acontecesse nada a ninguém, eles iriam até Aparecida do Norte, dar uma oferenda à Santa em prova de agradecimento.

Finalmente o dia chegara. Agora o casal já bem vestido, ela de sapato branco e o vestido muito bem passado e ele, calça de tergal, camisa listrada. No bolso, enrolado no lenço, o dinheiro pra Santa.

Ao longe se ouve o ronco do caminhão do Miguel Luque.

A ansiedade domina o casal, um nó na garganta, o coração acelera. A viagem para Aparecida era a coisa mais importante. Cada viagem tornava-se histórica.

Apressados, subiram no caminhão. Na bagagem, o caldeirãozinho, com virado de feijão, farofa e frango, tudo, enrolado no pano branco.

Debaixo da lona, na carroceria, disposta em fila, há vários bancos, quase todos ocupados. Dona Inocência e o Seu Dito Inácio afetuosamente chamam o casal para sentarem próximos a eles.

O seu Miguel Luque desce da cabine do caminhão e sobe na carroceria para dar um recado:

– Gente, vai atrasar um pouquinho… Vamos esperar o caminhão do Antonio Hernandes lá na curva do Bonafá.  Furou o pneu do caminhão dele, mas ele já tá trocando.

Durante a espera pelo Antonio Hernandes os romeiros conversam :

– Eu vou comprar uma cartucheira dois canos – diz o Bastião da Paca para o Alfredo Martins. E seu Alfredo por sua vez mostrando um olhar assustado diz:

– Bastião, caçada não quero saber mais, não. Desde aquela vez que me apareceu uma assombração lá na barrocão do Dito Cunha. Quando esperava paca no carrero. Chega! Nunca mais! A minha cartucheira dois canos já até virou casa de vespa…

– Eu vou comprar um cavaquinho – diz o Delmino  para o Zeca Rosa.

– Eu vou comprar uma sanfona – comenta o Zeca Rosa – e vou trazer também um violão para Belmiro.

Estas são as conversas dos homens…  A mulherada, por sua vez, só se comenta das famosas lembrancinhas da Aparecida do Norte: das canequinhas, santinhos… Que como troféus irão enfeitar as estantes, armários de cozinha e cristaleiras, com os dizeres: “Estive em Aparecida, lembrei-me de você.”

Neste momento, as conversas são interrompidas pelo ronco do caminhão do Antonio Hernandes, subindo o morro do Nestor Martins. A romaria vai começar.

Rompendo a madrugada, os dois caminhões ainda dão uma última parada em frente à casa do Antonio Moscoso para apanhar o Ditão, Odorico e a sua mãe Nhá Maria.

E agora, com o barulho do motor soando por todo o Itapema, misturando-se com os cantos do galo, seguem os dois caminhões, não carregando pessoas, mas sim, sonhos, esperanças  de  quem  lutou o ano inteiro num cabo de uma enxada, num roçado de pasto ou na dura lida de um pessegueiro.

nbsp;

Por Jorge Souza – Do livro Crônicas do Itapema, O Plantador de Poesias (Editora DGuararema) – jorge.p.souza@hotmail.com

Fotos dos fiéis: Fernando Mayfair – (11) 96490-1768

Foto década de 70 blog http://aparecidaantiga11.blogspot.com.br/

Comentários (0)
Comentar