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Barquinhos de Papel

Crônicas do Itapema, por Jorge Souza

Na minha idade, as recordações não me deixam ver,  nem mesmo sentir a vida passando.O passado é o alimento do meu presente. Estou aqui: sentada na varanda. Nesta tarde quente, às vezes, um vento toca em mim e corre para  o quintal, abraçando as roupas presas ao varal. Parecem dançar valsas.

O meu gosto é, toda tarde, sentar nesta cadeira, fechar os olhos e ver cenas de um mundo distante.

Ontem vi barquinhos de papel carregados pela enxurrada  nas pequenas valas abertas à beira da estrada após o temporal. Vi também um arco-íris e, até imaginei, um pote de ouro na sua origem, no outro lado do rio.

Hoje, nem acabei de sentar na cadeira , barquinhos de papel já vieram ao meu encontro. Relâmpagos riscaram o céu, trovões falaram em tons graves. Entendi  a voz da natureza… Entendi também a quietude do meu marido, apoiado no batente da janela de madeira pintada em azul. O seu olhar movia-se em duas direções: o capão de pêssego  pingo de mel defronte  à janela  e o cinza chumbo crescendo lá no céu.

Cada raio que surgia das nuvens não riscava o céu mas o seu coração, a claridade intensa dos relâmpagos escurecia as suas esperanças.

No interior da sala, na mesa grande, atrás do seu pai, um menino fazia barquinhos utilizando um velho papel de pão, ajudado pelos outros irmãos. Os irmãos nada falavam, também estavam preocupados…

Faziam as dobraduras e, num passe de mágica, iam  surgindo os barquinhos! Eles, como o pai, também  sabiam o significado do  ronco do trovão, o som da ventania a arrastar folhas ao vento sem direção. Era o prenúncio de uma chuva de pedra e, com ela,  frutas devastadas, galhos quebrados esparramados pelo pessegueiro, tristeza e prejuízo.

De repente, o silêncio  do céu foi falando, o trovão partiu, as nuvens se desmancharam: o temporal foi apenas uma ameaça.

– Graças a Deus que a chuva foi embora! – falou o meu marido deixando a janela e caminhando em direção à varanda. Da varanda ele caminhou até o quintal e todos nós fomos atrás. Juntos, vimos o céu se abrindo.

E naquela tarde  quente, um menino sentou na soleira da porta abraçando ao peito os seus barquinhos de papel e chorou. Eu, meu marido e nossos outros filhos, de tão felizes que estávamos, demoramos para perceber as lágrimas do filho caçula.

Corremos até a porta. Eu o peguei no colo. A sua voz estava misturada com soluços:

– Mãe, quer dizer que hoje não vou mais poder soltar os meu barquinhos de papel? A chuva não volta mais?

Por Jorge Souza – Do livro Crônicas do Itapema, O Plantador de Poesias (Editora DGuararema) – jorge.p.souza@hotmail.com

Postado em 05 de agosto de 2016/em

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