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A Casa dos Campagnolis

Crônicas do Itapema, por Jorge Souza

Hoje, a caminho da escola, pés descalços, borná a tiracolo (vazia de caderno  e de  lápis, mas cheia de esperança!) atravessamos o rio na velha canoa e fomos do Itapema pro Bellard. Na popa, o meu Tio Chico Lamão, tocando o barco à varejão e eu, sentado no meio da embarcação, ía feliz… Acariciando a frescura das águas, às vezes molhando o rosto, os cabelos…

Atracamos  a pequena embarcação a um tronco de Manacá no pequeno porto. O meu tio me empurrou pela bunda ajudando-me a subir o barranco. Ele, quieto ao meu lado. Assim, iniciamos a nossa caminhada pela estradinha em direção à escola. A minha vontade era de segurar a mão dele, mostrar o sorriso do meu coração. Tentei me aproximar, esbarrei um dos  meus cotovelos na sua perna direita.

– Ô, moleque… Vê se presta atenção na estrada!
Instantes depois, apliquei a estratégia novamente. Desta vez, encostei, sorrateiramente, a cabeça na sua barriga.

– Ô, moleque… Vê se toma cuidado! Já, já curo isto… Desencosta prá lá. Deixa eu pegar aquela varinha de marmelo ali na beira da estrada que você verá o que é bom…

A sua voz alterada, saiu só por sair. Notei traços de contentamento no seu semblante.
Já estávamos na altura  da fazenda dos Campagnoli. Aquele casarão enorme, bonito! Aquele terreirão calçado com tijolo… A fumacinha esbranquiçada do alambique a caminhar… Cheia de preguiça… Em direção ao céu…

Neste momento, vi tristeza nos olhos do meu tio.

– Ô Dermino… Não é inveja, não… O que queria mesmo, era dar uma casinha melhor prá voce e o seu irmão Nor… Sem aqueles buracos na parede. Veja que casa linda esta dos Campagnoli. Na nossa tapera, no inverno, o vento frio entrando pelos buracos da taipa, cortando as suas orelhas congela a minha alma…

– Tio, não fique triste com isto! A nossa tapera, como o senhor diz, deixa passar o vento frio nas madrugadas, mas a nossa noite nunca é fria . Sabe por quê? Porque o nosso teto  é feito de amor! Quem tem um teto feito com este tipo de sapê, mesmo na mais forte das geadas, sente até calor!

E assim, viramos a curva da estrada e avistamos lá no alto do barranco, a escola. Ao dizer adeus ao meu tio, observei, através dos  seus olhos, que as minhas palavras haviam feito cócegas no seu coração…

Por Jorge Souza – Do livro Crônicas do Itapema, O Plantador de Poesias (Editora D Guararema) – jorge.p.souza@hotmail.com

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