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A catança de Içá

Crônicas do Itapema, por Jorge Souza

É outubro. Depois da trovoada de ontem, os formigueiros foram despertados. As formigas saúvas, ao calor do sol, estão intrépidas. São milhares a caminhar apressadas pela terra fofa, amarela, protegendo seus ninhos.
Na parte da manhã os sabitus já voaram. Agora, no quente sol da tarde, a içá inicia a sua sina. Lançar voo e, em alguma terra distante, pousar. Perder as asas, cavar o buraco e procriar.
É um formigueiro grande, localizado próximo à estrada da Fazenda Caiçara. E lá, utilizando bacias de alumínio, cheias com água, está uma família a catar içás.
Na catança de içá, a bacia de água é fundamental. Os catadores, com os pés imersos no interior da bacia, ficam protegidos das doídas picadas das formigas, que aos milhares e furiosas rodeiam-na prontas para atacar, enquanto que, com as mãos, os catadores vão apanhando os insetos, prestes a voarem dos buracos.
Os caldeirões onde são colocados os insetos, préviamente recebem uma quantidade de água para evitar que as içás voem do interior do recipiente.
Este costume de comer içá é um hábito indígena, que foi passado pelos nossos ancestrais. Monteiro Lobato, o grande escritor e um grande apreciador dessa iguaria, em um de seus escritos denominou-o “o caviar do Vale do Paraíba”.
A catança está sendo boa, o formigueiro é enorme! Já estão quase cheios uns três caldeirões.
E no meio da tarde abafada, entre uma picada de formiga e outra, com o suor a escorrer-lhe nas costas e no peito, o irmão caçula pára, bate o boné na altura do joelho para espantar algumas formigas a subir-lhe pela roupa. Olha em volta, vê os irmãos agachados, apanhando as içás. Um aperto invade-lhe o peito.
Não vê o seu pai, que muito lhe ensinou sobre içá, principalmente em saber quando eles vão deixar o formigueiro.
Ele sabe, seu pai não está ali fisicamente junto a ele, mas lá, sentado na cadeira de rodas, na varanda da casa, está de olho na curva da estrada, ansiosamente aguardando o retorno da caçada ao içá.
E o seu filho, orgulhoso, com todos os caldeirões cheios de içá, dirá a ele quando chegar:
– Pai, este ano foi demais! Enchemos cinco caldeirões! Se Deus quiser, o ano que vem o senhor vai tá junto com a gente. Tenha paciência e fé em Deus. O senhor vai sarar!
E o olhar azul do seu pai brilha de esperança, misturando-se com o azul do céu daquela tarde abafada.

Por Jorge Souza – Crônicas do Itapema – jorge.p.souza@hotmail.com

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