Tempo em Guararema
31°
19°
tiempo.com  +info
GUIA

Conversa de chuva

Crônicas do Itapema, por Jorge Souza

É uma casa de taipa, coberta de sapé. Dito Preto, com os cotovelos apoiados no batente da janela, vê a chuva a cair… Vê também a revoada de siriris e a passarinhada a lançar-se em busca do inseto.

O bem-te-vi é o mais esperto. Sentado na copa da embaubeira, vai certo no inseto. Com o bichinho preso no bico volta à árvore, devorando-o. E voltando, logo em seguida, para apanhar outro e mais outro. Às vezes, num mesmo voo, apanha até três bichinhos.

Dito Preto hoje resolveu pensar na vida. No canto da cozinha, apoiada na parede, a foice. E junto à foice, pendurada, a sacolinha de pano encardida guardando a marmita amassada.

“O home sem trabaio só atrai coisa ruim , tristeza… Eu queria era tá lá no roçado, junto cosoutro… Escuitando o Zé Pedro contá suas história… Podia ter vestido o capotão e enfrentado a chuva, pois não é a natureza que dobra os home, são os home que dobra os outros home. Mas hoje não carece de ir. Aceitei o convite da chuva e vou ficar à toa. O meu coração gosta de conversá com pingo de chuva…”

Dito Preto mora só. Não tem mulher. Mora numa casinha, perto da mina d’água. O que ele gosta é de sentar num banco de angico no lado de fora da soleira da porta e ouvir as historinhas contadas pelo barulhinho das águas do pequeno córrego, às pedras.

Ele também tem muita história. O seu bisavô fora escravo. Muitas chicotadas levou no lombo. Muitas sedes passou no tronco.

Entra para o interior da casa, com um tição em brasa tirado do fogão de lenha e acende o seu pito feito de barro com caninho de taquarinha. Na janela, suga o pito. Ao ver o fumo aceso, lança o tição em brasa na chuva. O tição, ao cair na poça d’água, do terreiro faz ‘tchiii!’ e a fumacinha branca se dispersa por entre os pingos da chuva.

“Meus irmão sumiro no mundo. Às veis, um ou outro aparece por aqui. Nasci sem mãe. A partera só sarvô eu, minha mãe morreu. Tenho saudade memo é do pai. Quando ele se foi ficô uma coisa aqui dentro a me queimá por um bom par de tempo. No começo, a farta dele foi iguar a tição em brasa, mas o tempo é iguar poça d’água de chuva, que apaga… Só que apaga muuuuito devagarinho…”

Quando fez sete anos, foi para a escola mas, um dia, conversou com o pai:

– No recreio ninguém qué brincá comigo. Fico quetinho no meu canto. Isolado. Tem dias que me chamam de tiziu, tem dias que me chamam de anu-preto. Nunca o meu nome: Benedito. A fessôra nem olha pra mim. Sabe, pai, essas coisas dói mais que vara de marmelo, quando o sinhô me bate po mor de arte… Essas coisa cala na arma da gente, no coração da gente…

– É, meu fio, eu sei como é. As palavras, às veis, dói mais que chicote no lombo. Então se é assim, sai da escola.
Ele é despertado dos seus pensamentos pelo canto do nambu-xitã lá na distante grota. A chuva continua a cair.

“Êta chuvinha danada… Vamos mudá de assunto, se não, quem vai chovê, vai sê os meus zóios.”

Por Jorge Souza – Do livro Crônicas do Itapema, O Plantador de Poesias (Editora D Guararema) – jorge.p.souza@hotmail.com

Postado em 20 de outubro de 2016

Comentários (1)
Ver Todos Comentar

  1. Livia

    Delícia de texto!