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Deus quis assim

Crônicas do Itapema, por Jorge Souza

Não sente mais o braço – está adormecido pelo peso. Caminhara quase 10 quilômetros. Muitos carros passaram por ela no caminho. As suas narinas estão amareladas de pó. A gola do seu surrado vestido de chitão também.

Nenhum motorista fora solidário com ela. Não tivera nenhum mísero centavo para pagar o ônibus.

Nos braços, a criança ardendo em febre. Pendurado nos ombros, uma bolsa de pano com alguns remendos. No interior da bolsa, a mamadeira e algumas roupinhas doadas por vizinhos – para caso de internação. O seu estômago ardendo em fome. Os seus pés, calçando chinelas havaianas, foram engrossados pelo pó espesso da estrada, depositado no peito do pé, nos dedões. A sua vontade era estar usando um vestido longo para escondê-los. Principalmente aquele dedão, do pé direito, com um pedaço de pele arrancado por um tropeção.

Desanimada , envergonhada, chega à Santa Casa. Olha a recepção reformada, de paredes brancas, azulejos novos e cadeiras novas de estofamentos azuis. Está cheia de gente.

Chega ao balcão. Espera a sua vez. A sua voz quase não sai. Sente um nó na garganta.

– A sua identidade?
– Não tenho.
– Mas como? Então o registro de nascimento da criança?
Cabisbaixa. Com medo de falar
– Também não tenho.
– Sente ali e aguarde. Vou ver o que posso fazer. O próximo! Chama a recepcionista.

Derrotada, cheia de vergonha, caminha para a cadeira estofada. Ajeitando a criancinha no colo, senta, resignada, e espera.

Depois de quase duas horas de caminhada da fazenda até ali, sentada naquele estofado, sente-se confortável. O ar frio do ambiente a refresca. Colocando a mão na testa da criança sente que a febre diminuiu. O calor da testa agora é menor. O chá de alho que fizera em casa estava resolvendo o problema. Daqui a pouco iria passar pelo médico e tudo se resolveria.
E o marido que não chega? Combinara que viria na hora do almoço. Ouve um tropel de cavalo no asfalto da rua. Olha pela fresta da porta – não é o seu marido.

Está aflita. Tanta gente que chegara depois dela já fora atendida. E ela ainda nada. A recepcionista até agora não lhe falara nada a respeito da sua falta de documento.

Chegara às nove da manhã e agora já são quase três horas da tarde. Já perdeu a conta de tantos copos de água que tomara para espantar a sua fome.

A criança enrolada no pedaço de pano há muito não se mexe. Novamente ela coloca a mão na testa do menino para ver a febre. A testa está morninha. Mais calma pensa consigo:

– Como o chá de alho foi bom para baixar a febre! Estranho, é a criança não se mexer há algum tempo – pressente algo.
Finalmente a recepcionista a chama:
– Pega este corredor, vá em frente. A sala do médico é a segunda porta à direita.
Cabisbaixa, com a criancinha inerte no colo, pára na porta. O médico rabiscando um papel na mesa, não lhe dirige o olhar, apenas diz :

– Entre. Coloque a criancinha ali naquela mesinha, naquele canto.
A mãe coloca o anjinho na mesa e espera. Envergonhada não sabe onde colocar as mãos. Cabisbaixa, olha o seu dedão machucado do pé-direito. Tenta esconder a ponta do pé debaixo da mesa, não quer que o doutor veja o seu machucado, o seu sangue, onde as moscas azuis, no menor descuido, lá na distante roça, pode pousar e botar ovinhos.

O médido ríspido fala-lhe:
– Dá pra tirar a roupinha ?

O doutor examina o bebê:
– Seu filho acaba de morrer. Por quê não veio mais cedo?
Nehuma lágrima corre-lhe dos olhos. Apenas diz, levantando os ombros, conformada:
– Deus quis assim….

Por Jorge Souza – Do livro Crônicas do Itapema, O Plantador de Poesias (Editora D Guararema) – jorge.p.souza@hotmail.com

Postado em 18 de novembro de 2016

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