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Ditão I

Crônicas do Itapema, por Jorge Souza

Antes de iniciar, gostaria de fazer apenas uma breve descrição de quem eu sou: me chamo Benedito José Machado, sou mais conhecido como Ditão.

Quando vim pro Itapema, era ainda adolescente, trazendo apenas uma trouxa de roupas amassadas, encardidas e um coração jovem, mas já  enegrecido pela vida.

Logo cedo, aprendi a dura lida dos pessegueiros, a carpina dos pomares de laranja e  a  fabricação de  tijolos nas olarias.

Não sei por quê mas, sempre gostei de urubus. Pombas brancas nunca fizeram parte da minha vida.  Talvez  seja porque  sempre, quando lembro das minhas passagens da vida, só vejo coisas negras.

Já tive um sorriso na minha vida. A sua presença fazia o meu coração  voar mais rápido que um beija-flor, deixava a cor da minha alma mais branca que qualquer nuvem…

Mas, um dia, ela  lançou voo, radiante de luz,  subiu ao céu. Não chorei naquele dia. A carroça carregava aquele caixão, feito de fracas ripas em madeira clara, revestido com tecido de cor púrpura, puxada pelo cavalo Varão. Atrás do cortejo, bem próximo ao pé do angico, no morrinho das Pacas (niguém viu, apenas eu) a minha mãe, de mãos dadas com os anjos, voava em círculo como os urubus, subindo ao céu, sorrindo para mim por entre as nuvens.

Talvez seja este o motivo de gostar de urubus: apesar de negros, o voo deles lembra a minha mãe indo para o céu de mãos dadas com os anjos.

Bem, acabo de chegar. Sou colocado numa cadeira de rodas, pois não tenho mais  uma perna. Ela me foi arrancada em um hospital na capital. Lembro-me  da cena do dia em que a amputaram: havia um médico idoso, o qual  chamavam de Professor, acompanhado de  vários aprendizes. A dor não senti. A dor maior foi aguardar a minha vez. Era um hospital-escola  e estavam nos utilizando como ratos brancos de laboratório. Eu fui o sexto entre os dez a serem operados naquele dia.  O que me ficou na mente foi o desespero, as lágrimas  daqueles desconhecidos aguardando a sua vez  e o tratamento desprezível daqueles homens vestidos de branco. A partir daquele dia a cor branca deixou de significar paz para mim e virou pesadelo.

Mas aqui estou, sentado nesta cadeira de rodas de aro enferrujado. No meu colo, a velha trouxa de roupas amassadas e encardidas. E agora, o coração ainda mais enegrecido e endurecido pela vida.

O portão se fecha atrás de mim, enquanto sou conduzido pela rampa de cimento rústico  em direção ao prédio de paredes brancas com faixas e janelas azuis e chão de cimento vermelho. À minha frente, bem no centro,  a Igrejinha com as portas fechadas  (já tive tantas portas fechadas na vida, não importo com mais uma). No lado direito, a ala das mulheres. No lado esquerdo, a ala dos homens, para onde estão me levando. Olho para trás, na esperança de ver os meus sonhos e poder acenar-lhes com meu último adeus por entre as grades. Mas vejo apenas a placa  por sobre a grade azul onde está escrito: Asilo São Vicente de Paula.

Naquele momento, não notei se o meu coração ainda batia. Não o ouvia. O barulho do motor da ambulância a dar partida era mais forte que as batidas do meu coração.
Agora que a ambulância se foi, percebo: o meu coração ainda batia forte naquele exato momento em que começava o meu fim…

Por Jorge Souza – Do livro Crônicas do Itapema, O Plantador de Poesias (Editora D Guararema) – jorge.p.souza@hotmail.com

Postado em 02 de setembro de 2016/em

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