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GUIA

Dorico “Caôio”

Crônicas do Itapema, por Jorge Souza

Não conheço o seu sobrenome, mas por quê sabê-lo? Nem de onde veio. A julgar o seu jeito de falar e pelo tipo de história que me contava estou convencido que ele veio da terra de Virgulino Ferreira da Silva – o Lampião. Lembro da sua bicicleta preta de seleta encapada com rendinhas e dos enfeites coloridos em forma de fios presos ao manete do guidão e também nos eixos da roda, tanto dianteira como traseira, havia uma argola com pequenos fiapos coloridos – não sei o nome daquilo, mas lembram muito uma taturana. Estas mantinham o metal do eixo da bicicleta em brilho constante, apesar do pó da estrada.
Ele era especialista em histórias de Lampião e cangaço, conhecia muito. Acredito que esta afinidade com o Lampião era porque ele também era caolho e, como o Virgulino, perdera a vista direita.
– Esta vista eu perdi quando cavava um poço lá na fazenda onde meu pai era agregado. Eu já encontrando a aguinha brotando na terra barrenta. Enchi o latão de barro e dei dois puxão brusco na corda – era o sinal para o meu ajudante içar o balde. E o balde, já quase lá em cima escapou da corda e caiu. Tentei me proteger com as mãos, mas não teve como. Uma das partes da alça atravessou os meus dedos e fez vazar a minha vista prá sempre! Igual a de Lampião…
Deste dia em diante, Odorico passou a ser chamado de Dorico Caôio. Ele usava uns óculos de armação grossa e marrom e, para tapar a vista vazada: esparadrapo. A cada três dias ele mesmo trocava o esparadrapo. Nunca vi uma sugerinha na brancura do esparadrapo.
Como Lampião, Dorico Caôio também usava armas. Solidariedade ao próximo e sempre de bem com a vida era o seu rifle. Ajudava todo mundo no Itapema. Dava duro na roça do meu pai ou outras vezes no olaria do Dito Cunha. Se via alguém precisado de ajuda lá tava ele: buscar água na mina, lenhar no mato, passar creolina em bicheira de boi, tirar carrapato de cachorro. Especialidade sua era tirar espinho de ouriço de focinho de cachorro. Os cachorros quando viam o Dorico a segurar o alicate, ficavam todos deitados… Mancinhos.
Lembro-me da história que ele me contou sobre a razão do apelido Lampião dado a Virgulino Ferreira da Silva.
– Virgulino com seu bando armara uma emboscada para pegar a volante que estava em sua perseguição. Eles queriam era matar o sargento Lucena Maranhão, comandante da volante, que muita desgraça vinha fazendo no sertão em nome da lei. Este sargento estrupava, matava e depois, apoiado por delegados e coronéis, saía pregando pelo sertão que era obra de Lampião…
– Naquela noite, – continuava – durante o confronto com a volante, muitos tiros zuniam no meio da caatinga. A noite tava um breu. No meio daquela chumbaiada toda, um cabra cangaceiro perdera o seu cigarro. Então Virgulino ao atirar berrou: “Cabra da peste! Vai procurar o cigarro que alumio com o meu rifle”. Tanto disparava que a sua arma alumiava o chão igual a lampião. A partir deste dia em diante, Virgulino Ferreira da Silva passou a ser Lampião, o rei do cangaço!
Nunca me esqueci desta história e de outras contadas por Dorico. Um dia, uma vaga notícia sob sua morte chegara lá na casa do meu pai. Quando soubemos, meses já haviam passado do seu enterro. Finalmente ele partira para encontrar com Virgulino Ferreira da Silva.
Tenho certeza que Dorico, lá no céu, junto com Lampião, estão vendo que aqui na terra, o cangaço ainda não acabou. Ainda reinam os coronéis, donos de títulos e anéis. Por aqui a seca social está estorricando mais do que aquela, que nos anos quinze, se abateu no grande sertão do Nordeste.
Lá de cima, a vista esquerda do Capitão vive a vazar lágrimas ao ver que nada mudou. O povo miserável, sofrido das cidades, como nos tempos do cangaço, anda a temer de igual tamanho, tanto a polícia quanto o bandido…

Por Jorge Souza – Crônicas do Itapema – jorge.p.souza@hotmail.com

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