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A esposa do Lobisomem

Crônicas do Itapema, por Jorge Souza

Ontem, sexta-feira, dois de novembro, dia de finados. Aprendi desde criança que é bom acender velas aos mortos, assim desta forma os caminhos das almas ficarão sempre iluminados. Este ano dediquei uma vela ao meu tio Mantino, o mais recente falecido da família.

Este meu tio era muito brincalhão. Quando criança e mesmo adulto gostava de fazer arte. Se sua pele fosse negra diria que ele era um ancestral do Saci Pererê, dado as suas travessuras. Se tivesse enormes sobrancelhas, as duas se encontrando no meio da testa, acima do nariz, diria até que ele poderia também ser um parente distante do escritor Monteiro Lobato, pois também gostava de contar histórias. Os seus casos de assombração sempre eram engraçados. Ele sempre colocava humor em todos eles. Lembro-me de um: a esposa do Lobisomen.

“Jorge, você sabia que aqui no Itapema tem um lobisomem? Você conhece o Marcílio, não conhece?

“Conheço, sim. Filho do falecido Tico da Barroca. Ele é o filho caçula de sete irmãos! Ele é lobisomem. Em noite de lua cheia, sempre de quinta para sexta-feira ele se transforma em lobisomem. Você sabia que há duas maneiras de se transformar em lobisomem? Uma, sendo o filho caçula de uma família de sete irmãos, como foi o caso do Marcílio ou se for mordido pelo próprio lobisomem. Ele é um lobisomem até que bonzinho. Às vezes meio atrapalhado.”

“Mas tio, faz tempo que a gente não ouve mais falar dele virar lobisomem. Será que ele perdeu o encanto? Aliás, uma vez lobisomem, nunca mais volta a ser gente?”

“Não, o lobisomem, depois que o galo canta, volta a ser homem. Se, nesse momento, alguma pessoa conseguir fazer um corte, por menor que seja em seu dedo mindinho, desde que saia uma gotinha de sangue ele deixa de ser lobisomem. O Marcílio, coitado! Há muito deixou de virar lobisomem, mas não foi porque perdeu o encanto. O que aconteceu com ele foi que se encantou com a Vicentina e acabou casando com ela.”

“A Tina casou com ele, mesmo ela sabendo que era lobisomem!?”

“Ela tava encalhada. Também pudera, quem iria querer uma mulher cheirando a suor, bosta de vaca, de vestimenta igual a homem: sapatão, camisa xadrez,  chapéu? Mulher de voz mandona. Homem gosta de mulher perfumada, de pele macia e obediente – como fala a Bíblia. Coitado, o seu coração lhe meteu numa fria. Dizem que nas noites de lua cheia, de quinta para sexta, ele fica na janela vendo a lua cheia e se controlando, suando frio para não se transformar. E no canto da sala, vigiando com o cabo de vassoura em guarda, fica a Vicentina com aquele seu olhar dominador e gritando entre os dentes cerrados.”

“Olha! A casa tá que é um brinco, nada de virar lobisomem. Não quero ver um pelinho no sofá e muito menos no meu tapete novo. Eu te quebro de vassoura se eu ver um arranhãozinho sequer nos móveis.”

“Jorge, é triste ver o rosto dele colado ao vidro da janela olhando o luar. Mas fazer o quê? Na vida é assim, quando se tem um coração apaixonado, por mais que lutemos não deixamos de ser seu escravo…”

 

Por Jorge Souza – Crônicas do Itapema – jorge.p.souza@hotmail.com

 

 

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