Tempo em Guararema
25°
18°
tiempo.com  +info
GUIA

Fazedor de felicidades

Crônicas do Itapema, por Jorge Souza

Janeiro, final de uma tarde quente. Um temporal já havia caído. No céu, uns restos de nuvens cinzentas dando adeus. O sol já se fora, a noite aos poucos vinha se achegando.
Naquele dia, a todo instante, eu ía à frente de casa para avistar a porteira. Em casa, a ansiedae tomava conta de todo mundo. Minha mãe era a mais contida, mas mesmo assim, disfarçadamente ía até o parapeito da janela dar uma olhadinha na estrada em direção à porteira.
Muitos planos já foram feitos, o seu local já fora meticulosamente escolhido, ele ficaria no armário, no interior da sala grande. Após acirradas discussões a decisão fora tomada, só poderia mexer nele o meu pai, minha mãe e o meu irmão Jaime inclusive era ele quem fora junto com meu pai na cidade. Para o meu pai, de todos os filhos este era o mais inteligente, o mais habilidoso para manusear coisas e consertar coisas.
O tempo passava, a noite chegou trazendo canto de curiango e coruja. No brejo a sapaiada fazia festa. A ansiedade aumentara ainda mais. Todos nós estávamos preocupados. Meu pai não tinha como hábito chegar da cidade já noite formada. O mais tardar, era na boca da noite, quando havia ainda um restinho de luz. Ele não gostava de tocar a charrete no escuro, além do que o cavalo Gaúcho ficava muito assustado durante a noite, qualquer vulto ou ruído poderia torná-lo agressivo.
Na cozinha, sob a claridade do lampião de gás, minha mãe preparava o jantar enquanto eu e meus irmãos ficávamos sentados na calçada da frente de casa, olhando a estrada, a porteira, na expectativa de ver, ou melhor, de ouvir os passos do cavalo ou o ruído das rodas da charrete no pedregulho da estrada. Isto seria o sinal do meu pai chegando. Os nossos ouvidos ficavam atentos, pois apesar da algazarra da sapaiada no brejo, lá perto da porteira, saberíamos distinguir o som.
A intervalos passados minha mãe juntava-se a nós, agora ela deixava transparecer não só a ansiedade mas preocupação também:
– Nossa o Dermino tá demorando hoje…
Com passadas lentas, ela atravessava a sala e retornava à cozinha, deixando-nos, além de ansiosos, agora também, preocupados.
O meu irmão mais velho, Jair, observou primeiro o cachorro Julim levantar as orelhas e disse:
– Vejam a cara de felicidade do Julim! O pai tá vindo!
Súbito, ouvimos o tropel decidido do Gaúcho no pedregulho da estrada. Naquele dia, o meu pai fez uma coisa que raramente ele fazia. Preso à charrete havia uma buzina composta de uma parte de borracha vermelha com formato de uma bola presa à extremidade de um tubo metálico e um bocal na forma de um autofalante na extremidade oposta. Então ele tocou a buzina quando estava bem próximo à porteira.
Nós, em algazarra, lambuzados de felicidade, corremos até a porteira ao seu encontro e ao do meu irmão Jaime que vinha junto com ele. Apesar de embalado pela felicidade, olhei para trás e vi minha mãe com aquele olhar sereno encostada na soleira da porta, orgulhosa, junto com minha irmã Jacira, a segurar ao colo a minha irmã caçula, Jomara.
Segundos depois, lá estávamos na porteira. Meu irmão Jurandir junto com Jair e Juvenal, abriram a porteira de arame farpado. Foi neste dia que aconteceu a coisa mais gostosa da minha vida! Meu pai me pegou no colo e colocou-me entre as suas pernas e me deu a rédea para tocar a charrete. Depois do Jair, Jura e o Nal subirem na parte traseira da charrete, toquei-a até o terreiro da minha casa.
Embebido de alegria pelo ato do meu pai, havia me esquecido daquele objeto, daquela caixa grande e retangular embrulhada num pano branco o qual havíamos esperado eufóricos o dia todo e que, naquele momento, era segurado com todo cuidado pelo meu irmão, todo orgulhoso de si.
Naquele dia, o meu pai acabara de comprar o nosso primeiro rádio de pilha. Não me lembro da marca, só me lembro que o mesmo era uma caixa de madeira e na parte de trás havia uma espécie de um tubo da cor de papelão onde colocava-se uma quantidade enorme de pilhas.
Este equipamento foi para nós, por muitos anos, uma máquina de fazer felicidades. Mas, como na vida a felicidade nunca é eterna, apenas momentânea. Um dia, esta máquina deixou de funcionar para sempre. Um ratinho malvado entrou dentro dele e o corroeu por dentro, igual doença feia.
Bem, esta história do ratinho conto numa próxima vez…

 

Por Jorge Souza – Crônicas do Itapema – jorge.p.souza@hotmail.com

Comentários (0)
Comentar