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Flor de Pessegueiro

Crônicas do Itapema, por Jorge Souza

Caiu a noite. Caiu a chuva. Ainda há alguns relâmpagos a intervalos riscando o céu. As nuvens cinzentas vão se dispersando, deixando aparecer algumas estrelas. Os vagalumes surgindo nos morros lembram enfeites de Natal: piscas-piscas em movimento.
Sentado no escuro da varanda, vejo as águas do rio refletindo o luar – é noite de lua cheia. O rastro do luar no preguiçoso rio lembra a cabeleira longa de uma sereia.
Lá na estrada distante, na claridade das lâmpadas da iluminação pública, asas de insetos brilham. Agora, na mesma estrada, um carro passa. Só aqui nesta varanda a hora não passa. No quintal, o barulho do silêncio é quebrado pelo latido de um cão qualquer.
Um resto de nuvem cinzenta escondeu a lua? Ou será a lua que se escondeu atrás da nuvem? Pergunta ridícula, típico de quem não tem assunto.
Uma brisa leve balança a folha da palmeira. Um canto de sapo misturado ao canto de uma coruja ecoa abafado.
Por um momento, tudo está parado: as estrelas, os vagalumes, a lua , as nuvens, os insetos, o vento e também esta dor a me remoer cá dentro.
Apoio o meu queixo com as mãos, apoiando o braço no braço da cadeira. Os pensamentos estão confusos. Não consigo desenhar a tristeza formada dentro do peito.
Minha mãe vem sentar-se junto a mim – isto me conforta. Ela nada me fala. Com o seu olhar marcante, com alguns brancos fios de cabelo a balançar ao sabor da leve brisa da noite, muito me diz, mesmo estando calada.
Olhamos, nos olhando, a silhueta do pé de pêssego à nossa frente – o luar ainda está a vencer os restos das nuvens cinzas no céu. Há uma certa tristeza nos galhos. Este ano os galhos não foram podados pelo meu pai. Lembranças nos vêm à cabeça: a tesoura ligeira em sua mão a decepar os galhos… A subida no cavalete para alcançar o galho mais alto. O chapéu de palha de aba larga. Os pés descalços, sujos com cheiro de terra. A calça arregaçada até as canelas. O andar de passadas curtas mas ligeiro…
Agora, lá no céu, as nuvens se foram. O luar límpido, suavemente banha o quintal e a varanda onde estamos. Pela porta entreaberta da sala, a claridade revela, num canto, o nosso mais indesejado utensílio doméstico: uma cadeira de rodas. E lá fora, o luar passeando de mãos dadas com um ventinho, balança as pétalas de coloração rosa do pessegueiro, que para nós, está acinzentada pelo ciclo natural da vida . Ciclo este, que teimamos em não querer aceitar…

Por Jorge Souza – Crônicas do Itapema – jorge.p.souza@hotmail.com

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