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A Mula Sem Cabeça

Crônicas do Itapema, por Jorge Souza

– Naquele tempo havia vagalumes, não havia luz elétrica ainda. As casas eram iluminadas com lamparinas. Vou contando ao meu filho.

– Papai, a luz elétrica espantou os vagalumes?

– A luz elétrica não espantou o vagalume, ela apagou os corações dos homens, agora eles não têm mais tempo de ver o piscar dos insetos pois quando cai a noite, todos se recolhem e ficam a ver televisão.

– Agora entendi! Os vagalumes existem. São os homens que não querem ver.

– É isto aí meu filho, ainda existem…

– Bem, vamos continuar… Naquele tempo ainda não tinha luz elétrica, as noites eram mais noites, o céu tinha mais estrelas e o brilho da lua era mais bonito…

Agora, deitado no meu ombro, olhar fixo, ouvidos atentos, tendo na face expressão de ansiosidade, com uma das mãos a afagar os meus cabelos.

– Vamos papai, conte logo a História da Mula Sem Cabeça!

– Era uma sexta-feira, o Tio Hélio sentado na varanda da casa do seu pai Carmo Claudio, o já falecido seu bisavô, acabava de fumar um cigarro enquanto ia agradecendo a janta e o café.

– Pai tô indo, amanhã preciso acorda cedo, tenho que terminar a cerca do Manograsso. Boa noite.

– Boa noite, meu filho.

O tio Hélio desceu o degrau da varanda, atravessou o terreiro, pegando a trilha que levava à sua casa. Para chegar à sua casa, havia dois enormes pés de manga, por onde passava a trilha.

Entre os pés de manga, havia uma valeta bem funda. A mesma era utilizada para escoar a água do sítio do meu avô Carmo, para o Rio Paraíba, na época das chuvas.

Por sobre esta valeta, passava uma pinguela de madeira grossa com mais ou menos 20 cm de espessura, de cor cinza, com algumas pequenas rachaduras.

E lá ia o tio Hélio, caminhando na trilha, no silêncio da noite, calada pelo brilho da lua cheia e pensando nos catoeiros armado por entre as capituvas, na margem do rio em frente à ilha do Vô Heitor. “Com esta noite quente, amanhã vai amanhecer fisgado umas traíras daquelas, do tamanho de um toco”.

Já no meio da pequena ponte, ouve o canto assustador da coruja pousada no moirão de cerca. Súbito, uma brisa leve balança as folhas da mangueira.

Seus cabelos se arrepiam, os pelo também. O coração acelera, o peito pesa. Por de trás do tronco enorme da mangueira vem a fera, soltando labareda de fogo por onde deveria ficar a cabeça. Altiva, com a pele de coloração branca vai deixando pegadas de fogo por onde pisa.

De repente, a mula sem cabeça muda o rumo e vem em direção ao Tio Hélio, que agora está paralisado no meio da pequena ponte, sem mesmo nem respirar.

Apavorado, começa a pensar, e na sua mente vem a História do Dito Cunha contada no velório do Dito Inácio:

– “Mula sem Cabeça! Escapá desta é fácil! Você tem que fechar a boca, é pra ela não vê os dentes e fechar a mão que é prá ela não vê as unhas. Fazendo isto! Ela vai embora sem fazer mal a ninguém”.

A boca já estava fechada, lentamente foi fechando as suas mãos para esconder as unhas. Agora a mula sem cabeça deu uma parada mais ou menos a dois metros de distância do Tio Hélio. Deu uma fungada e lentamente foi embora, atravessou a cerca de arame farpado pegando a estrada em direção à Fazenda Caiçara.

***

O meu filho agora dorme o sono dos anjos. Pego entre os braços e levo-o para o seu quarto. Enquanto vou cobrindo-lhe com a manta, alguns pensamentos me vêm à cabeça:

O meu avô há muito se foi, o Tio Hélio, mais recente, também se foi. E sempre, com saudades, recordamos deles… Porém, o que me deixa triste, é saber que Lobisomens, Sacis Pererê, Mulas Sem Cabeça, Corpo Seco, Caipora há muito estão morrendo. Será que haverá saudades destes?

 

Por Jorge Souza – Crônicas do Itapema – jorge.p.souza@hotmail.com

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