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O Capiau

Crônicas do Itapema

O sol começava a brilhar no Morro do Cunha, dissipando lentamente a neblina lá na grota.

Pela estrada que vem da Barroca do Antonio Hernandes, chapéu de feltro de cor marrom na cabeça, camisa xadrez, bigode impecável de coloração levemente esbranquiçada… Lá vinha Miguel Luque para encontrar a turma para a caçada de veado.

Cartucheira calibre 28 pendurada ao ombro, na cintura, um facão e, atravessado no peito, um cinturão carregado de cartuchos.

Ainda era cedo. Havia combinado de encontrar o pessoal na curva do Bonafá. O Toninho Torralbo o apanharia nesse ponto.

Estava ele sentado no tronco de um  pé de jataí à beira da estrada  em frente a cerca  do Antônio Bonafá, quando de súbito, parou um carro branco com quatro  rapazes.

Ele observou que a placa do carro era de São Paulo.

Os rapazes pararam o carro bem em frente a ele. O pó levantado pelo carro o fez agitar a mão defronte ao nariz para dissipar a poeira no ar.

Tranquilo, observava sossegadamente o veículo estacionado à sua frente.

Os quatro rapazes desceram do interior do carro branco e, com ar de deboche, foram logo perguntando:

– Ô Capiau! Por acaso tem muito veado por estas bandas?

O Seu Miguel Luque olhou bem no rosto de quem lhe havia feito a pergunta. Levantou-se calmamente, deixando aparecer o cinturão de cartuchos atravessado no peito, o facão na cintura e a cartucheira no ombro. Com um olhar sério, levantou um pouco a aba do chapéu de feltro escuro para melhor encarar os rapazes e respondeu:

– Bem, aqui não tem aparecido muito veado não, mas pelo jeito, acabaram de chegar quatro.

Mal acabaram de ouvir essas palavras, os rapazes, apavorados, entraram no automóvel, fizeram uma manobra brusca e desapareceram no sentido de Guararema.

– Como essa gente da cidade é mal educada! Nem bom dia diz! Fez este comentário com o Seu Antonio Bonafá, que estava atrás da cerca de taquara, fumando tranquilamente o seu cachimbo, trajando o seu  paletó preto com o seu ar de intelectual.

Essas últimas palavras do Seu Miguel Luque soaram naquela manhã com uma certa ironia no ar e uma satisfação gostosa dentro do seu peito.

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Por Jorge Souza – Do livro Crônicas do Itapema, O Plantador de Poesias (Editora DGuararema) – jorge.p.souza@hotmail.com

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