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GUIA

O Estrategista

Crônicas do Itapema, por Jorge Souza

Na cozinha, o murmurinho da água a encher a caneca. Passos pra lá, passos pra cá. O barulho do chinelo a arrastar mistura-se ao canto da curruíra na cumeeira do paiol a anunciar mais um dia de labuta.

É a minha mãe preparando o café.

Logo ouço rinchar de burro, barulho de coisas batendo, aves cantando… De fundo, uma música e a voz do locutor. É o rádio sintonizado num programa sertanejo:

– É o Zé Bétio. Óia a hora! Óia a hora! São 5:35 minha gente! Tá na hora!

Todo esse movimento, mas eu e meus irmãos continuamos sonolentos, deitados na cama, esperando o despertador oficial.
Estamos em janeiro. A colheita do pêssego já terminou. Ainda é possível encontrar algum pêssego da qualidade Rei da Conserva, temporão, escondido entre os galhos; com muita sorte, até um Talismã ou Pingo de Mel.

Agora começa a época da carpina do pessegueiro e também os planos para o ano, que vem surgindo.

“O pêssego lucrou muito pouco. A cada ano as despesas com caixinha e saquinho é um absurdo. Nós, cada ano ganhando menos e o barraquista lá no Mercado Municipal, em São Paulo, só enchendo os bolsos. A gente trabalha que nem um burro e o atravessador leva todo o lucro. A colheita este ano foi boa! Conseguimos enviar para São Paulo, vinte mil caixinhas, mas o lucro foi muito pequeno. Vou arrancar aqueles pé de Branco Duro que já estão velhos e vou plantar laranja. Não quero ficar dependendo apenas do pêssego”.

Esses são os pensamentos do meu pai enquanto afina as nossas enxadas no paiol de milho…

Eu estou de férias da escola. Não pense que para um garoto de 14 anos, que adora jogar bola, nadar no Riacho do Bonafá ou no Porto do Moscoso, caçar passarinho com estilingue e rodar de canoa no morro do Dito Cunha acha férias uma coisa maravilhosa.

O problema é que nas férias a tarefa de carpina aumenta, como não se tem a desculpa de se estudar para prova, a quadra passa de sete braças para nove braças. Então para que possa deliciar-me com as atividades acima, sou obrigado a levantar mais cedo para terminar a minha tarefa, no máximo até o almoço (o sol da manhã é mais ameno).
Vamos mudar de assunto, deixa eu voltar no “O Estrategista”, tema desta crônica.

Somos sete irmãos. Durante o tempo em que vivemos juntos, nunca vi meu pai bater em nenhum dos filhos. Minha mãe, sim, nas vezes que levei algumas chineladas, ou varada de galho de pêssego (na minha casa, escondida atrás da porta, sempre havia uma varinha de pêssego caprichosamente preparada pela minha mãe). Era para atropelar gato e cachorro que aparecia debaixo da mesa na hora das refeições. Raramente tinha outros fins e, quando era usado para esses outros fins, vinha a famosa frase bíblica profanada pela minha mãe:

– Quem ama seus filhos, usa a vara. Deus escreve certo por varas tortas…
As chineladas ou varadas da minha mãe nunca doíam pois o seu olhar de piedade, mesmo antes do ato, era a mais fantástica das pomadas.
O meu pai era um estrategista. Um grande administrador. Eu só vim a descobrir isso depois de longos anos. Tirar sustento para esta enorme família apenas de um pedaço de terra, tem que ter uma boa visão de negócios.

Na época, para nos fazer levantar pra labuta, ele pegava a enxada, ía até abaixo da janela do nosso quarto. Em volta da nossa casa havia uma calçada feita em cimento rústico.

Pegava a enxada e começava a esfregar no cimento. O barulho da lâmina em contato com o cimento era infernal, não tinha cristo que ficasse na cama!

Segundo ele, isso era um preparo para a enxada ser afiada, ou melhor, alimada. Isso economiza a lima.

Para mim, era o lado estrategista do meu pai em ação. Indiretamente, estava nos alertando: meus filhos, tá hora, vamos pra roça!
E lá íamos nós, bota de borracha vulcabrás nos pés, chapéu na cabeça e as enxadas apoidas no ombro. Parecíamos um pelotão com os seus respectivos rifles marchando para o pessegueiro.

E à frente, o cachorro Julim, ora urinando nas touceiras, demarcando o seu território, ora raspando as patas traseiras nos pedregulhos da estrada. E nós, atrás, sem nem pensar na vida, pois tínhamos um líder que nos conduzia. Não parecíamos apenas um pelotão, éramos, naquele momento, soldados sendo preparados para vencer as futuras batalhas da vida.

Por Jorge Souza – Crônicas do Itapema – jorge.p.souza@hotmail.com

Postada em 06 de janeiro de 2017

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