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O menino e o bigodinho

Crônicas do Itapema, por Jorge Souza

A tarde estava quente. Era verão. O céu azul, sem nuvens. Às vezes, uma brisa suave balançava os seus cabelos.O menino sentado no velho tronco de mangueira com os pés na terra, cotovelos apoiados nos joelhos e mãos em ‘V’ segurando o queixo. Vestia shorts, camiseta e tinha os pés descalços, lambuzado de terra.

Naquele dia, uma nuvem escura pousara no seu coração. O seu estimado passarinho de gaiola morrera. De um dia para o outro, o bichinho entristecera, como uma flor no sol escaldante… Foi murchando até o último suspiro…

Com a ajuda de seu pai, cavara uma pequena vala e enterrara o pobrezinho. Ainda está na sua mente o corpo rígido dentro da gaiola. Mal amanhecera o dia, ele ainda deitado na sua cama não ouvira o canto do seu passarinho. Ele abrira a janela e lá pendurado no caibro a gaiola: “Estranho, o puleiro vazio… Deve estar comendo o alpiste no fundo da gaiola” – pensara.

Aguardara alguns minutos e nada do passarinho subir para o puleiro. Então ele levantou, deu a volta pela porta da cozinha, apanhara a vareta com um ganchinho utilizado para desprender a gaiola. Cuidadosamente, foi trazendo a gaiola presa ao ganchinho, quando a gaiola atingiu a altura do seu nariz, ele viu deitado no fundo, imóvel, o pobre bichinho com as duas patinhas levantadas para cima.

Apoiou a gaiola na pequena mureta da varanda, abriu a portinha e apanhou a avezinha. Levou ao rosto para sentir se havia alguma quenturinha, um restinho de vida. Mas nada, estava geladinho.
Em lágrimas, foi para a cozinha onde sua mãe preparava o café. Sua mãe apenas o abraçou e falou:

– Chore… Chorar faz um bem danado para o coração…
E agora, ele ali sentado naquele tronco, com o olhar perdido, lembrava de tudo isto.

Pertinho, dali de dentro da cozinha, pela janela, sua mãe via o seu menino. Tirou o avental e caminhou em direção ao filho. Sentando ao seu lado, acariciou-lhe a cabeleira. Ele encostou a cabeça ao seu peito. Assim ficaram um tempo sem nada falar.

– Filho, você está machucado pela morte do seu bigodinho. Deus tirou –lhe a vida para livrá-lo. A morte não é tristeza. O problema é que nosso coração é um pouco gaiola… Gosta de aprisionar quem amamos. Morte é igual a soltar passarinho de gaiola – é liberdade…

– Filho – continuou a mãe – não fique triste, não. O seu passarinho está é voando por este mundão de céu azul! Cantando pros anjos! Olha, eu acabei de preparar aquele mingau de fubá com caruru e ovo caipira. Tá prontinho lá no prato te esperando.Vamos comer?

– É, mãe, você acha memo que ele tá cantando lá pras bandas do céu?

– Não só cantando como também dando aulas. Você acha que anjos já nascem sabendo voar? Que nada bobo, é a passarinhada que vai pro céu que ensina.

– Mãe, eu tô é com uma fome…

emPor Jorge Souza – Crônicas do Itapema – jorge.p.souza@hotmail.com

Postada em 25 de janeiro de 2017

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