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O Saci Pererê do Itapema

Crônicas do Itapema, por Jorge Souza

Tião da Joana vivia apaixonado pela Fatinha, filha do Juca da barroca. Fatinha,  menina linda, cabelos de cor de luar a correr pelas costas e olhos da cor do céu também gostava dele, mas não do jeito que ele queria. O seu coração já estava ocupado. Ela amava o Quinzinho que por sua vez tinha as asas caídas pela Cássia. Bem, deixa-me parar por aqui… A ciranda do coração pode ser eterna…

Quando caia a noite, Tião na cama rolava pra lá e pra cá. Fatinha era a sua insônia. Numa noite destas Tião, já madrugada alta, teve a ideia de procurar o Tonho benzedor. Homem respeitado no Itapema. Negro véio, ainda acorrentado nas lembranças da escravidão dos seus antepassados, trazia muito conhecimento. As suas rezas curavam quebranto, cobrero e até picada de urutu-estrela.

Mal amanheceu o dia, Tião rumou para a casa do Tonho benzedor, todo cheio de esperança.

Ao virar a curva da estrada, lá no pé do pequeno morrinho, a casinha de taipa soltava uma fumacinha pela chaminé enegrecida. Sentado na soleira da porta, o velho Tonho, pitando o seu cachimbo de barro com o caninho feito de taquara-taquari.

– Bom dia véio Tonho. Como vão as coisa?

– Tirando as marvadezas do Saci Pererê, que tem me aturrado a vida, vô levando… Já fiz de tudo prá pegá o marvado: já joguei peneira, rosário feito de mato bento nos redemoinho de vento mais quar o quê! Ele é muito mais ligero que eu. Tô demais de véio prá isto. Tião, me descurpe de fala estas coisas procê. Fale meu fio do que ocê carece?

– Ah, véio Tonho, ando necessitado… Ando morrendo de amor pela Fatinha, mas o coração dela tá é de zóio no Quinzinho. Ocê com as suas rezas não qué ajudá eu nisso?

– Tião, buli com coisa do coração não é face não. Mas vou tentá ajudá ocê.

O coração do rapaz sorriu no meio daquela manhã.

– Meu fio, ocê só precisa é capturá o marvado do Saci. Não pense ocê que é mole não. Tem treis tipo de Saci, os treis de uma perna só:  o Trinque, moreno e brincaião; o Saçurá, que tem os zóio vermeio e o Saci- Pererê que é pretinho, usa um cachimbinho no canto da boca, uma toca vermeia na cabeça, ligero como um  curisco. É esse o que ocê tem que pegá. Se ocê catá a carapuça dele quarque desejo seu será feito.

– Véio Tonho, qué dizê que se eu pegá a toquinha dele posso pedi o que desejá? Até o amor de Fatinha? Então me diga. O que eu tenho de fazê?

– Sabe aqueles redemoinhos de vento que parece no terreiro em dias de sor quente? – aquilo é Saci – é só ocê jogá a peneira que pega ele. Não pensa que é mole. É muito difícil.

– Obrigado, Véio Tonho. O meu coração vortô agora transbordá esperança. Ocê me empresta a vossa peneira?

– Craro fio!

Tião da Joana colocou a peneira debaixo do braço e saiu ligeiro pela estrada afora.

Duas semanas se passaram e numa bela manhã Tião regressou à casa do Véio Tonho, todo sorridente, com a peneira debaixo do braço.

– E aí Tião, pegô a carapuça do Saci?

– Que mané Saci o quê! Aqui está a sua peneira. Ocê não sabe o que me aconteceu?! Eu e a Rita da Quinha estamos namorando. A Fatinha virou fumaça, se desvaneceu na imensidão do céu.

– Tá vendo meu fio, como o Saci é ladino? Antes que ocê prendesse ele, ele prendeu o seu coraçãozinho no coração da Ritinha.

– Se foi ele memo que feiz isso, então o Saci não é tão marvado assim como ocê diz. Pois não é que o meu coração anda numa batucada danada de felicidade? A buruera cá dentro é tanta que nem zunido de cigarra escuto!

Por Jorge Souza – Crônicas do Itapema – jorge.p.souza@hotmail.com

Foto: O Saci da versão de 1977 foi interpretado por Romeu Evaristo, no Sítio do Pica Pau Amarelo

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