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O violeiro

Crônicas do Itapema, por Jorge Souza

article class=post-contentHá tempos que minha viola se aquietou. Aliás, nem foi a viola mas sim, meu coração. Ela pendurada na parede do quarto, silenciosa, há muito espera. Como um lápis esquecido por sobre a escrivaninha aguardava as mãos macias do meu coração tocá-la para rabiscar desenhos no papel, para dar vida à minha tão sofrida vida.

Então, hoje fui até ao quarto, apanhei a danada! Primeiro acariciei-a como quem desliza os dedos na cintura de pilão de uma menina-moça… Sentei-me na beira da cama e toquei uma canção…

Quando comecei a cantar a voz saiu rouca, desafinada. Não havia conversa entre eu e a viola. Apenas a batida do meu dedo nas cordas e o som abafado do meu coração. Como dizia meu pai: o encanto de um violeiro não está no cantar e muito menos no tocar, violeiro e viola devem prosear como dois compadres contadores de histórias. Assim, até mesmo um coração urbano ficará embevecido.

Passado um tempo, apesar das muitas tentativas, não conseguíamos estabelecer diálogo. Fui até a parede e, cautelosamente, pendurei a viola no prego enferrujado. Então, fui para o quintal escutar cantigas da noite: um sapo-boi ali, um canto de coruja acolá, um sopro de brisa a balançar as folhas do abacateiro.

Sentei no batente da porta, preparei um cigarro enrolando o fumo picado com o meu pequeno canivete e traguei. No começo, tive dificuldade em acender. Após riscar uns três palitos de fósforos, a fumaça ficou macia e comecei a mastigá-la na boca como uma criança mastiga um pé-de-moleque.

Lá no morro, atrás das árvores, o clarão da lua cheia que ainda não nasceu e no céu, estrelas.

Apoiei a minha cabeça no batente da porta enquanto soltava baforadas na noite silenciosa. Quieto, via a fumaça do meu cigarro lentamente se desmanchar. Isto não me deixava contente, ao contrário aumentava a minha angústia.

Voltei ao quarto, peguei a viola e lentamente começamos a prosear. Primeiro contei a história do meu desamor, depois falei dos meus sonhos. Já tarde da noite, eu cochilando, quem resolveu pontear um verso foi ela:

– Você pode ter estrelas e luar
Água cristalina da mina
Mas se não tiver sonhos
Você é igual a flor sem chuva
Não consegue florir
– E para rimar com florir, o melhor agora é ‘nóis’ ir dormir…

Por Jorge Souza – Crônicas do Itapema – jorge.p.souza@hotmail.com

Postada em 09 de janeiro de 2017

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