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Tio Chico Lamão e a flor chamada saudade

Crônicas do Itapema, por Jorge Souza

Na casinha de taipa, de paredes esburacadas, na imensa escuridão, situada lá naquele barracão, ali no terreiro da casa de quem debaixo para cima olha em direção ao pico do morro, vê-se apenas os contornos das árvores lá em cima da montanha a fazer divisa com o céu estrelado.
Quem da estrada passa, ao olhar em direção à casa, também enxerga faixos de luz a sair pela única janela, pela porta entreaberta e por alguns buracos das paredes de taipa. A claridade vem do lampião pendurado no teto, preso com um arame. No recinto, há cheiro de querosene e no teto, os finos paus que seguram o sapé estão recobertos por fuligem negra.
Num canto, a caminha, e deitado por sobre o colchão de capim com alguns rasgos, o seu tio Chico Lamão. Embaixo da cama o penico e próximo à cabeceira, no chão, um caixotinho de madeira cheia de areia. É ali, quando o seu tio tem o acesso de tosse, que escarra o catarro vindo com custo das suas profundezas.
O seu estômago reclama por comida, comera no almoço apenas feijão, farinha e uma banana da terra. Ainda bem que seguira o conselho do seu irmão:
– Esta banana é muito grande. Coma a metade. Na parte da tarde ocê comi o resto cum café, aquele pão é pro tio. Não precisa esquentá o café o tio vai tomá frio memo, você ainda é muito novo prá mexê na cozinha, pode se queimá. O nosso tio tá muito doente hoje, não tá conseguindo nem mexê direito na cama. Vou chegá tarde, depois do serviço vou lá no armazém comprá banha e querosene, porque acabô tudo. Quando o tio adormecê escoia este feijão e deixa de moio neste carderãozinho cum água, assim quando eu chegá é só cozinhá, isto vai adiantá bastante a nossa janta.
Já noite, o lampião apagara por falta de querosene e o Nor – assim carinhosamente ele chamava ao seu irmão de nome Agenor – ainda não chegara. O seu tio já tivera dois acessos de tosse durante o dia, o ar lhe faltara. Ele, utilizando uma tampa amassada de panela, abanara próximo ao seu rosto. O ar fresco o acalmou.
Naquela escuridão, ele está com medo. O seu tio Chico Lamão dorme, respirando ofegante. Então, sentado, desamparado, encolhido num banquinho, ele chora. A sua dor é grande. Lembra daquele dia em que sua mãe morrera. Também lembra vagamente do rosto dela, pálida, aquele mundaréu de gente e também daquele cheiro de vela e dos rumores de vozes orando, misturado com o perfume dos cravos que exalavam do interior do caixão extendido no meio da pequena sala de terra batida. Este odor, ainda hoje está impregnado na sua alma. Naquele dia, meu pai, ainda muito criança, diante do corpo de minha avó, não sabia que aquilo era a morte e que a morte era a semente que iria fazer brotar no seu coração uma flor eterna chamada saudade…

Por Jorge Souza – Crônicas do Itapema – jorge.p.souza@hotmail.com

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