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Um dia de mãe

Crônicas do Itapema, por Jorge Souza

Dez de novembro de 1962. São cinco e meia da manhã. A casa está cheia de vida. Lamparinas à querosene movimentam a casa. Vizinhos, curiosos aguardam na parte externa da casa. Acesso ao interior da casa, apenas as mulheres e os filhos do dono da casa.

No pasto, o marido. Está numa labuta danada, com o cabresto em uma mão e, na outra, segurando espigas de milho tentando atrair o cavalo Gaúcho para laçá-lo. As tentativas são inúteis. O cavalo Gaúcho está arisco, ignora o desespero e a necessidade do seu dono naquele dia, ignora também as saborosas espigas amarelas.

No interior da casa ouve-se gemidos. Crianças choram, pensam que a sua mãe vai morrer. Para eles, aquele ser que fez crescer a barriga da sua mãe não é bem vindo. Julgam, pelo gemido da sua mãe, que a morte dela está perto. E que o culpado é aquele ente que vem rasgando as entranhas daquela mulher…

No quarto, o lençol está molhado pelo suor. A dor mistura-se com o som do latido dos cães no quintal. Pela fresta da janela, é possível ver a sua filha mais velha auxiliada pela sua Tia Otília, que segurando a lamparina de chamas dançantes, vê a sobrinha apreensiva a cuidar da mãe, manuseando um pano umedecido em água morna.

A mulher deitada por sobre uma montanha de travesseiros, envolta em um lençol branco, tem o olhar embaçado pela dor mas mesmo assim consegue ver o olhar assutado da filha na penumbra do quarto. Olha ao redor e vê também os seus outros quatro filhos, uns nos pés da cama, outros na cabeceira, todos assustados. Alguns estão a chorar. Então, súbito, um pensamento assustador invade-lhe a cabeça:

– E se eu morrer? O que será deles? Mesmo que eu vá para o céu a minha vida lá será um inferno!

E lá no pasto, com a barra da calça encharcada pelo orvalho da noite e cheia de carrapicho, o marido desiste de laçar o cavalo. Desolado e preocupado, correndo, volta para casa, trazendo o cabresto inútil pendurado ao ombro e o desespero estampado naqueles olhos azuis.
– Nor, – vai falando para o seu irmão – não consegui pegá o Gaúcho para levá a Zoraide na Santa Casa.
– Delmino, não se preocupe – fala o irmão – o Dito Cunha com a Nica já trouxeram a partera Barbina.

E exatamente as sete e meia daquela segunda-feira, no exato momento em que o sol iniciava a dissipar a serração, lá no barracão do Miguel Luque, um choro de criança ecoou na manhã, calando o canto do bem-te-vi e assustando o sabiá de peito vermelho no pé de ameixa próximo à janela do quarto.

Agora, a parteira enrolando o rebento em um pano, entrega-o aos braços da mãe. O menino está a berros. A sua mãe, feliz, já esquecida das dores, foi dar-lhe de mamar. O bebê recusa os seios. Ele não estava com fome. O seu choro queria apenas dizer:

– Obrigado, mamãe. Eu sei que não foi fácil a minha vinda.
Mas sua mãe não o entendeu e, carinhosamente, voltou-lhe os seios.

Passados já quase 42 anos este mesmo filho – já tarde da noite e cansado – perde-se em palavras na tentativa de escrever um texto lindo, cheio de poesia, com letras simples, para retratar a sua eterna gratidão. Mais nada. A madrugada avança. As palavras há muito já foram dormir.

– É. Vou imitar as palavras. Vou dormir também. Escrever algo sobre o dia das mães é difícil. Na realidade, mãe não tem dia e muito menos noite. A única certeza que qualquer mãe tem, é de ter um lugar garantido no céu. Mas sem sossego algum…

Por Jorge Souza – Do livro Crônicas do Itapema, O Plantador de Poesias (Editora D Guararema) – jorge.p.souza@hotmail.com

Postado em 02 de dezembro de 2016

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