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Um sorriso vindo do céu

Crônicas do Itapema

Chico Lamão acordou de madrugada, acendeu a lamparina e, descalço, caminhou lentamente pelo chão de terra batida. Foi até ao outro quarto vizinho ao seu, levantou a lamparina à altura dos olhos para enxergar melhor e, na penumbra, viu os seus dois sobrinhos dormindo em uma cama improvisada por sobre um jirau. O menor, de olhos azuis, magrinho, estava descoberto. Apoiou a lamparina no caixote, na cabeceira da cama, e o cobriu. Ao cobrí-lo, viu a claridade da lua entrando por um buraco da parede de barro. O tucho de pano que vedava o buraco caíra. Com muito cuidado, evitando fazer qualquer ruído, tapou-o novamente com o pedaço de trapo.

Agora mais confortado, voltou para a cozinha, deixando a lamparina por sobre uma mesinha com louças velhas, encardidas de carvão. Abriu a porta da cozinha e caminhou até o poço. Um ventinho sorrateiro entrou pela porta quase apagando a chama da lamparina. Foi até o poço apanhar água para fazer o café. A lua ainda estava forte, o clarão iluminava a trilha que vinha da casa até o poço. Ao passar pelo pé de mexerica fedidinha, desabotoou a calça e deu uma gostosa mijada. A urina quente, ao atingir o solo, deixou subir um vapor que rapidamente dispersou no meio da madrugada. Lá na distante barroca do Dito Cunha ecoou um canto de curiango.

Voltou com água trazida numa moringa. Havia cinzas no fogão à lenha e junto às cinzas havia brasa. Foi fácil reavivar o fogo: apanhou num canto da cozinha, alguns gravetos de taquara bem sequinhos e colocou os pauzinhos  de  maneira  que não abafassem a brasa. Deu alguns assopros com a boca, depois abanou com uma velha tampa de panela, toda amassada. Rápido, o fogo crepitou na madeira. Colocou a água numa caneca de alumínio um pouco encardida de carvão e levou ao fogo para esquentar. Enquanto esperava a água ferver, foi montando o coador de pano de coloração amarelo-escuro com um cabo de ferro todo enegrecido que estava fincado na parede de barro.

Ouve um ruído no interior da tapera: com um pedaço de coberta ao ombro o seu sobrinho mais velho vai se achegando:

– Ô Nor… Vorta a dormi… É cedo, ainda, rapaiz.

– Perdi o sono, sabe, tio? Hoje, sonhei com a minha mãe…

– E ela? Tava dando risada ou chorando?

– Ô, tio! Quar a diferença se chorando ou rindo? Do mesmo jeito, ela não tá mais aqui…

– Fio, mãe quando morre, vai pro céu, ocê não sabia disso? E lá, de longe, sentada nas nuvi, ou nas estrela, ela fica oiando os fio. Mãe não tem forga não. A sua mãe antes de parti, ela pediu pra mim oiá oceis. Mãe quando aparece chorando em sonho pros fio é sinar que os seus fio tá sendo martratado ou mar encaminhado na vida…

– Tio, não fique preocupado não, a mãe tava rindo é de sobra… Tio, posso sentá no rabo do fogão pra me esquentá?

E o tio, com o coração aos pulos, todo feliz ao saber do sonho…

– Craro! Senta aqui enquanto preparo o café.

Por Jorge Souza – Do livro Crônicas do Itapema, O Plantador de Poesias (Editora D Guararema) – jorge.p.souza@hotmail.com

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