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GUIA

A vila do Itapema

Crônicas do Itapema

A canoa cortando suavemente a água avança na pequena foz do rio. Naquela manhã tranquila, ouve-se apenas o murmúrio do remo ao tocar as águas.

No interior da canoa, as flechas postas dentro de pedaço de bambu guaçu, apoiado em uma das laterais da canoa. Atravessado no peito, o arco confeccionado de guatambu. As cordas feitas da fibra do tuncun, marca-lhe suavemente o peito altivo. E na proa, o saco de farinha de mandioca.

Ao passar por baixo de um ingazeiro, levantando os braços, apanha o fruto que está  a pender do galho, parte a bainha e delicia-se com o adocicado  da fruta. Restos de semente são atirados na água. Cardumes de piapara revolvem as águas atrás da canoa, lutando para abocanhar os restos das sementes do ingá.

Já está há dois dias descendo o Rio Paraíba do Sul, vindo de  Paraitinga. O seu destino era a vila a href=http://guararematem.com.br/ target=_blankGuararema/a, fundada por uma ex-escrava. Ia tentar negociar a sua farinha.

Ao atravessar a ilha dos Leonardo ele avista o Pau D’Alho, árvore enorme de copa larga. Uma tristeza aloja no seu peito como uma flecha. Esta parte do rio corta a fazenda Pilueiras. À margem direita já é possível avistar algumas casinhas de taipa dos colonos no pé do morro.

O bisavô do atual dono desta fazenda era o Laurindo Cunha, bandeirante, homem valente! Único sobrevivente do bando arrasado pela febre.

Quase morto, ardendo em febre, encontrado pelos índios na Praia Amarela,  foi levado para uma oca,  e às custas de muitos cuidados, foi curado.

E, num dia de chuva, sumiu. Só apareceu dois anos mais tarde trazendo consigo mais homens, todos armados de facão e pau-de-fogo.

Velhos, mulheres e crianças foram mortos. E alguns índios, jovens sobreviventes ao ataque, foram feitos escravos.

Com dor no peito, ele se lembra de como escapou, ainda criança. No momento do ataque, estava lá no alto do angico, a colher mel da abelha jataí.

Ele viu os portugueses chegando, sorrateiros, pela floresta. Um deles até encostou no tronco da árvore onde ele estava.

O ataque covarde aconteceu bem de manhãzinha, os jacus ainda estavam comendo frutas na pimenteira.

Naquela banda, a dor invade o seu coração. Lembra da sua triste história. Não vê mais a floresta onde tantos macucos, veados, jacus caçara.  A floresta estava parcialmente devastada naquele pedaço de chão. No lugar da aldeia, agora, surgia a vila do Itapema.

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Por Jorge Souza – Do livro Crônicas do Itapema, O Plantador de Poesias (Editora DGuararema) – jorge.p.souza@hotmail.com

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